sábado, 23 de agosto de 2014
"Metade"
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca,
Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza,
Que a pessoa que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante,
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a uma mulher inundada de sentimentos,
Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora,
Se transforme na calma e na paz que mereço.
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada,
Porque metade de mim é o que penso,
A outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável,
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso,
Que me lembro ter dado na infância,
Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito,
E que o seu silêncio me fale cada vez mais,
Pois metade de mim é abrigo,
A outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba,
E que ninguém a tente complicar,
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer,
Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada,
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também.
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